Quantas mulheres cabem em uma mesma vida?

Às vezes eu encontro uma versão antiga de mim em uma fotografia e fico alguns segundos olhando para ela.

Tem a menina que saiu do interior do Espírito Santo para realizar o sonho de estudar em uma universidade, mas que morria de medo de morar sozinha. A que tomou decisões que talvez hoje não tomasse, acreditou em coisas das quais mudou de ideia e quis futuros que já não deseja mais.

Depois vieram tantas outras.

A que começou a construir uma carreira.
A que se apaixonou.
A que escreveu livros.
A que se tornou mãe.
A que precisou recomeçar.
A que, em algum momento, no meio disso tudo, teve que descobrir quem era de novo.

Às vezes tenho a impressão de que já vivi muitas vidas dentro desta mesma.

E talvez seja isso mesmo.

Existe uma expectativa estranha de que precisamos saber exatamente quem somos. Como se, em algum momento da vida adulta, finalmente chegássemos a uma versão definitiva de nós mesmas.

Eu não consigo mais acreditar nisso. Estamos em constante mudança porque a vida pede isso.

Tem horas em que pede mais maturidade. Em outras, mais leveza.

Pede para arriscar.
Pede coragem.
E tem horas em que pede apenas para parar e respirar.

E isso vai nos moldando.

Hoje, com 30 e poucos, eu não quero, e nem cabem mais na minha vida, algumas das coisas com que a menina de 20 sonhava. Outros desejos continuam exatamente no mesmo lugar.

Meus sonhos mudaram de tamanho, pessoas ficaram no meio do caminho, minhas prioridades mudaram, lugares deixaram de ser casa e outros sempre vão ser.

Mas acredito que carrego um pouquinho de todas as versões que já fui. Tudo isso forma quem eu sou hoje.

A menina que sonhava grande ainda está aqui.

A que quer conhecer o mundo está aqui.
A mulher que tinha mais tempo para sentar e escrever durante horas também.
Assim como a mãe que hoje escreve este texto enquanto as crianças dormem.

Todas elas são eu.

Talvez crescer seja justamente descobrir que não precisamos escolher apenas uma.

Existe um momento para cada uma delas habitar. E também para brilhar.

Eu não sou mais a mulher daquela fotografia.

Mas também sou.

Carrego um pouco da coragem dela, alguns dos seus medos, os sonhos que conseguimos realizar e até aqueles que decidimos abandonar.

Daqui a dez anos, provavelmente vou olhar para quem sou hoje com a mesma distância.

Talvez ache graça das coisas que agora parecem enormes. Talvez tenha realizado sonhos que hoje ainda escrevo em listas. Talvez esteja querendo coisas completamente diferentes.

Não sei.

E, pela primeira vez, talvez eu não precise saber.

Porque quantas mulheres cabem em uma mesma vida?

Espero que muitas.

Ainda quero conhecer todas as que eu posso ser, apenas vivendo.

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Eu sou a Giulian

Giulian Ola

Seja bem-vinda ao meu mundo. Aqui escrevo sobre a vida, literatura, viagens e poesia. É um lugar para ler com calma e transbordar sentimentos.

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