
Entre um chamado, um chorinho e uma soneca eu escrevo. A casa quase já não faz silêncio, mas também não está um caos. Existe uma brecha, um meio termo, onde eu me encontro e escrevo.
Durante muito tempo, achei que precisava esperar o momento certo. Quando tudo estivesse organizado, quando eu estivesse menos cansada, quando a rotina estivesse sob controle. Na minha cabeça eu precisava estar inteira para escrever, mas com a maternidade eu aprendi que ser inteira é se dividir em vários pedacinhos e tentar dar conta assim mesmo.
Há dias em que o corpo pesa. Em que o tempo parece curto demais para tudo que se deseja ser. Em que a escrita não flui como antes. Em que a identidade muda sem pedir autorização. A maternidade, o trabalho, o desejo de continuar criando tudo coexistindo no mesmo espaço interno, às vezes em harmonia, às vezes em conflito.
O mundo costuma nos empurrar para a pressa. Para a solução. Para o resultado. Mas há algo profundamente humano em permanecer um pouco mais no processo. Em admitir que nem tudo precisa ser resolvido agora (por mais que a gente queira muito).
Escrever, para mim, é organizar o caos. É habitá-lo com mais gentileza. É transformar o cansaço em poesia. É tentar traduzir esse monte de sentimentos e nem sempre vou chegar em algum lugar com isso.
A vida, assim como a escrita, não se revela inteira de uma vez. Ela se mostra em fragmentos: uma manhã comum, um corpo em movimento, um pensamento que insiste, um sentimento que não cabe em frases prontas.
Existe beleza nisso, ainda que nem sempre seja confortável. Existe força em continuar, mesmo sem ter todas as respostas.


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